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Image by Patrick Tomasso

Amar ao mar

Amanhecia e o sol entrava lentamente pelas janelas de seu apartamento no décimo segundo andar. A cortina, entreaberta, deixava que o sol tomasse conta lentamente do quarto e assim, clareando lentamente o ambiente, ele despertava. Já não era refém de despertador há mais de vinte anos.

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Após levantar, tomou um bom banho, preparou seu desjejum e tomou-o em frente à TV enquanto zapeava os canais. Pegou sua pasta, verificou se o apartamento estava trancado e saiu. Que horas eram? Não sabe, não se lembra. Pegou o elevador, desceu até o térreo, cruzou o hall e passou pela portaria.

— Bom dia seu João.

— Bom dia seu Ângelo, pouco transito hoje hein?

 

Disse em tom jocoso o porteiro. Ao que Ângelo sorriu de volta. Atravessou a rua e chegou à sua empresa para mais um dia de trabalho.

Proprietário de um escritório editorial que surgira na sala de sua casa, Ângelo vira o negócio se expandir a ponto de ocupar toda a casa, foi quando decidiu mudar e ir para um apartamento em frente. Vinte anos mais tarde, seu escritório era referência em processo editorial no país. Uma carreira de sucesso, desenvolvida com paciência, dedicação e disciplina. Em mais de dez anos com Ângelo, Vivian, sua secretária, não se lembrava de nenhum episódio do chefe envolvido com algo que não seja trabalho. Livro é minha vida. Era a frase escrita em relevo na parede de seu escritório. E era o que realmente parecia ser para Vivian.

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Ângelo entrou em seu escritório e encostou a porta, conferiu no relógio as horas, 8h30, e ligou o computador. Puxou a agenda do dia, suspirou fundo e pediu a Vivian que o trouxesse um café e se preparasse para uma reunião não agendada. Vinte minutos mais tarde, Vivian estava sentada à sua frente com os olhos marejados sem entender muito bem o que motivara Ângelo tomar aquela decisão. Embora pudesse parecer tristeza, era antes alegria. Vivian, em dez anos de empresa, nunca vira o chefe dedicar um tempo para si. Nos últimos três anos, desde a morte da mãe, Ângelo passara natal e réveillon no escritório. Fatos que Vivian sabia pois ela providenciava a compra do vinho e do queijo, que encontrava invariavelmente no lixo após as festas.

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— Por que você está chorando, Vivian?

— Desculpe, Sr. Ângelo, é que sempre comento com meu marido que o senhor precisa de um tempo de descanso, viajar, férias e sempre pensamos em como poderíamos convencê-lo a tirar uns dias... desculpe, me emociono de felicidade pelo senhor.

 

Dois minutos após a conversa, a agenda de Ângelo começava a ser mudada e transferida e logo as passagens para Paris estavam compradas. Duas semanas na França me farão bem, pensou enquanto acertava detalhes de sua ausência com o gerente financeiro e com a gerente editorial. Decidira se desligar de tudo. No dia seguinte embarcaria para sua primeira viagem de férias em vinte anos. Não imaginava que isso aconteceria um dia...

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No fim de dia, de volta para casa, Ângelo senta-se na varanda para assistir o ocaso, não tão belo quanto no campo, mas tão belo quanto São Paulo pode proporcionar, e diante do sol, escondendo-se por entre os concretos, ouve, ao longe, o seu computador avisar que chegou um e-mail. Pensa se vai levantar para ler, decide que está de férias e deixa para a volta.

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No dia seguinte, malas prontas, casa fechada, cópia da chave entregue à Vivian, ele pega o taxi em direção ao aeroporto. Malas despachadas, check-in feito, ele se dirige ao saguão de embarque. Observa esposas se despedindo de maridos, filhos despedindo-se de pais. Embarca. Assenta-se confortavelmente na primeira classe do Airbus e espera as instruções. O avião levanta vôo e, no trepidar da aeronave, sente que deveria ter lido aquele e-mail. Besteira, pensou enquanto reclinava o assento e preparava-se para um cochilo.

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Eram quatro horas da tarde quando o telefone de Vivian tocou no escritório. Era da companhia aérea. O avião que levava Ângelo para França chocara-se com outra aeronave e explodira sobre o oceano atlântico. Após horas de telefonemas e contatos com os poucos familiares, Vivian ouve a campainha da empresa tocar. Ao abrir a porta, entra por ela uma moça de pouco mais de dezesseis anos, com um envelope em mãos.

— Sr. Ângelo se encontra?

 

Após uma hora de conversas e histórias, Vivian abre o e-mail do chefe e nele vê a mensagem enviada no dia anterior pela jovem Joana. Sr. Ângelo, minha avó faleceu hoje, a cerimônia de cremação será amanhã as oito horas e jogaremos suas cinzas no mar. Gostaria de encontrá-lo após retornar do litoral. Vivian olha para Joana, que em lágrimas lhe conta de tudo o que não aconteceu, de como sua avó amou um homem que não pode com ele viver e como ela ficou encantada com a possibilidade de conhecer o Ângelo de sua avó.

Após muitas lágrimas, Joana levanta-se e, em tom solene, diz

— Se aqui não lhes foi possível amar, o amor os fez amar ao mar.

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